Quadro Saúde Mental

Estimulação Magnética Transcraniana: que tratamento é esse?

A Estimulação Magnética Transcraniana superficial repetitiva, que também é conhecida como EMTr, que é a sua sigla, é um tratamento médico utilizado nos casos de Transtornos Depressivos, nos episódios depressivos do Transtorno Bipolar, em planejamentos neurocirúrgicos, e na tentativa de combater as alucinações auditivas, muito comum na Esquizofrenia.
A estimulação é feita por meio de pulsos magnéticos gerados por um equipamento desenvolvido exclusivamente para esta técnica. É um tratamento capaz de gerar mudanças controladas nos neurônios (células do sistema nervoso responsáveis pela condução do impulso nervoso) de regiões específicas do cérebro, ativando-os ou inibindo-os, de acordo com o objetivo terapêutico.

O método consiste na colocação de uma bobina (espiral metálica envolta em plástico) encostada à cabeça do paciente. Essa bobina emite pulsos magnéticos em determinadas regiões do cérebro que atravessam o crânio de forma semelhante à das ondas da ressonância magnética. Quando atingem o neurônio, esses pulsos disparam um impulso nervoso, que é transmitido a outros neurônios, para a liberação de neurotransmissores (serotonina, noradrenalina, dopamina, etc).

A EMTr não é um tratamento experimental. Longe disso! É um tratamento aprovado pelo Conselho Federal de Medicina, pela ANVISA (Agência Nacional da Vigilância Sanitária), e pelo FDA (Food and Drug Administration), que é o órgão regulador dos Estados Unidos. É um tratamento médico como qualquer outro procedimento da medicina. Por isso, apenas médicos podem aplicá-la.

Em 1985, Anthony Barker, na Inglaterra, construiu o primeiro dispositivo eficaz e indolor de Estimulação Magnética Transcraniana não invasiva. Poder-se-ia, então, magnetizar diretamente o tecido nervoso, sem a necessidade de invasão cirúrgica do crânio dos pacientes. Em 1995, é lançada a primeira publicação cientifica comprovando a eficácia da EMTr no tratamento da depressão.

Em 1999, o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas da Universidade de São Paulo (IPq HCFMUSP) cria o Grupo de Estimulação Cerebral, chefiado, na época, pelo prestigiado Médico Psiquiatra Professor Doutor Marco Antônio Marcolin, iniciando o uso da EMTr no Brasil. Desde agosto de 2013, o serviço é coordenado pelo Psiquiatra André Russowsky Brunoni, Doutor em Neurociências e Comportamento pela Universidade de São Paulo, que possui publicações científicas de destaque internacional na área, além de experiência no uso de diferentes formas de neuromodulação.

Na região dos vales do Taquari e Rio Pardo, a EMTr ainda é uma novidade. A Clínica que trabalho foi pioneira ao trazer o tratamento para estas localidades. Além disso, em todo o Brasil existem muitas clínicas de referência em técnicas de neuromodulação, que já trabalham há anos com Estimulação Magnética Transcraniana. Destaca-se as que situam-se no município de São Paulo, com pesquisadores de renome na área. Sua grande maioria são Psiquiatras com titulações de Doutorado e Pós-Doutorado no assunto.

Assim como qualquer outro tratamento na Medicina em geral, a EMTr não é 100% eficaz. Aliás, poucas terapêuticas possuem garantia de 100% de efetividade; então, é prudente que se considere a possibilidade de não funcionar. Em medicina é difícil afirmar com absoluta precisão a ocorrência de um fenômeno, pois diversos fatores podem interagir tornando um especifico caso diferente dos demais. Nem os Psicofármacos (como, por exemplo, os Estabilizadores de Humor, Antidepressivos e Antipsicóticos), que são amplamente conhecidos e estudados, e que já auxiliaram e trataram com sucesso tantas pessoas, possuem eficácia absoluta.

Alguns respondem bem ao tratamento medicamentoso, e outros não. Com a EMTr não é diferente: existem pessoas que respondem satisfatoriamente, e outras que infelizmente não obtém melhoras com essa técnica. E às vezes, é necessário, inclusive, utilizar medicações associadas à EMTr, e, mesmo assim, sem garantia de 100% de sucesso.
Felizmente, pesquisadores de todo o mundo seguem produzindo estudos a respeito das terapêuticas na área da saúde mental.

A Estimulação Magnética representa uma alternativa a mais para a psiquiatria, que carecia de novas opções de tratamentos neurobiológicos. Ela não invalida nem tira o crédito dos medicamentos psicotrópicos. Aliás, os psicofármacos ainda seguem sendo a primeira alternativa de tratamento. Conforme guidelines internacionais, a EMTr é indicada para os pacientes que não respondem ao tratamento medicamentoso e/ou psicoterápico.

Outro aspecto interessante a respeito da EMT gira em torno daquelas pessoas que apresentam efeitos colaterais insuportáveis com o uso de medicações psicotrópicas. Somente quem tem depressão ou outro transtorno psíquico sabe o quanto é ruim padecer desse sofrimento, e o quão inquietante são determinados efeitos colaterais. Por sorte, muitas pessoas que fazem uso de remédios não apresentam efeitos colaterais… mas, e aquelas que os possuem? Caso se troque tais medicações e persistam os efeitos colaterais, e as Psicoterapias não forem suficientes para obtenção de melhoras, quais outras formas de tratamento são indicadas?

Dependendo da doença em questão e da resposta ao tratamento medicamentoso, nos momentos de estabilidade da doença, descontinuar a medicação não é indicado: pode-se tentar enfrentar e tolerar os efeitos colaterais, desde que os benefícios sejam maiores que os efeitos indesejados. Quando isso não acontece, aparece a estimulação magnética como uma boa opção de tratamento, uma vez que produz pouco ou quase nenhum efeito colateral, desde que sejam seguidas as normas internacionais de segurança.

A EMTr de baixa freqüência tem ótima tolerabilidade e o único efeito colateral significativo é cefaléia, que ocorre em 3% dos casos (devido à contração dos músculos do couro cabeludo), tranquilamente tratada com analgésicos comuns. A indução de zumbidos ou diminuição transitória da audição pode ocorrer em 10% dos pacientes, mas esse risco é minimizado com o uso de tampões de ouvido. A EMTr de alta frequência, entretanto, devido a seu efeito estimulante, pode predispor à convulsão em indivíduos suscetíveis, se aplicada fora das margens de segurança preconizadas. Até 1996 havia o relato de 6 casos de crises convulsivas, sem sequelas clínicas tardias, induzidas pela EMTr rápida.

Em função deste risco, os pesquisadores dos diversos centros mundiais reuniram-se em Bethesda (EUA) em 1996 e estabeleceram os limites de parâmetros de estimulação considerados seguros, tais como intensidade do pulso, freqüência utilizada, número de estímulos e tempo da sessão. Após a adoção destas regras internacionais, os relatos de crise induzida pela EMTr são praticamente inexistentes.

E aquelas pessoas que apresentam patologias renais graves, ou algum déficit hepático severo, ou alguma doença cardíaca importante (essas condições podem impedir parcial ou totalmente o uso de Medicações Psiquiátricas), como tratarão as suas depressões? Nesse sentido, mais uma vez, a Estimulação Magnética Transcraniana pode ajudar, ao oferecer um tratamento seguro para esses pacientes. Faço a ressalva para aqueles que usam marca-passo, pois nesse caso a EMT é contra-indicada. Outras contra-indicações: epilepsia de difícil controle, hipertensão intracraniana, implante cerebral profundo, hemorragia cerebral recente.

Dúvidas são comuns de surgir quando um tratamento não é muito conhecido, quando surgem técnicas médicas novas. Considero que, em nossa região, que apresenta um crescimento econômico e cultural considerável e notável, as inovações no campo da saúde devem ser bem-vindas. Significam progresso, desenvolvimento, novas opções, inovações.

A Estimulação Magnética Transcraniana não é a solução para todos os males mentais, não é uma ferramenta mágica para as dores da alma, mas representa uma inovação tecnológica e uma opção eficaz para algumas moléstias Psíquicas, com amparo literário-científico vasto e robusto.

Destaco a importância de buscar um médico de confiança para ponderar qual o melhor tratamento para cada caso. Questionar os efeitos colaterais, contra-indicações, tempo de tratamento, possibilidades de eficácia, custos. E nunca se deve optar pela automedicação, muito menos prorrogar o sofrimento para depois. Os Transtornos Psíquicos são doenças como qualquer outra patologia da medicina e devem ser encarados dessa forma, e, por isso, merecem tratamento adequado.

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Comments (1)

  1. Tenho em mãos encaminhamento para tendimento com Dr. André R. Brunoni para meu filho ,por favor, ajude-me não sei como faze-lo e este atendimento é de extrema importância para nós.
    Obrigada.

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